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‘Corpo sempre vai brigar para recuperar peso que perdeu’, diz endocrinologista

Especialista indica os principais cuidados nos primeiros anos de vida para reduzir o risco de obesidade

André Derviche Carvalho

14 de out de 2026 (atualizado 14 de out de 2026 às 11h17)

A resistência do corpo à perda de peso é uma tendência natural e esperada. Por isso, quadros de reganho de peso são comuns quando o paciente não mantém a prática de atividade física e/ou o tratamento medicamentoso da obesidade. A endocrinologista e professora da Unifesp, Gláucia Carneiro, explica o que isso tem a ver com a genética da obesidade.

“O cérebro pode resistir, porque ele entende que a perda de peso é um risco para a inanição. Assim, o corpo começa a se defender dessa perda de peso e, com isso, aumenta a fome”

Segundo a especialista, a herança genética pode contribuir para até 70% do ganho de peso. Em live do Painel Brasileiro da Obesidade (PBO), iniciativa do Instituto Cordial, ela detalhou os mecanismos genéticos por trás da obesidade. Nesse contexto, pessoas com obesidade podem apresentar um controle desregulado de fome e saciedade.

Ambiente obesogênico favorece reganho de peso

A professora Gláucia Carneiro define o cenário atual como uma “tempestade perfeita” para o ganho de peso. Nesse sentido, a vulnerabilidade de indivíduos com predisposição à obesidade se soma ao ambiente moderno, que prioriza a oferta de alimentos ultraprocessados. Como resultado, observa-se aumento nos índices de obesidade ao redor do mundo.

O conceito de “fome hedônica” representa esse cenário. Diferentemente da “fome homeostática”, essa necessidade por comida vem não por necessidade fisiológica, mas pela busca por prazer. Assim, a “fome hedônica” favorece o consumo de alimentos hiperpalatáveis.

“O ambiente de abundância não quebrou nossa biologia. Pelo contrário, nossa biologia de sobrevivência está operando exatamente como estava programada, mas em um ambiente para o qual não foi projetada”, diz Gláucia.

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Genética é definida na gestação

Há uma janela crítica nos primeiros mil dias de vida da criança para influenciar a predisposição à obesidade. Essa janela se divide em três fases: concepção e gestação; nascimento e lactação; introdução alimentar.

  • Concepção e gestação: uma dieta materna com restrição ou excesso de calorias, além de diabetes gestacional e tabagismo, pode resultar em um perfil metabólico “poupador de peso” na criança;
  • Nascimento e lactação: nos primeiros seis meses de vida, o aleitamento materno exclusivo atua como um escudo epigenético, prevenindo a obesidade;
  • Introdução alimentar: até os dois primeiros anos de vida, pais e responsáveis devem evitar dietas ricas em ultraprocessados, que modulam o padrão de apetite na vida adulta.

Reganho de peso após a interrupção da medicação

O reganho de peso após a interrupção do tratamento medicamentoso é esperado. Por isso, recomenda-se a interrupção gradual. “É fato que vai recuperar o peso e é preciso fazer uma vigilância. Se necessário, é preciso tomar remédio para o resto da vida, porque é uma doença crônica. Além disso, depois da bariátrica, é preciso reconhecer se a fome hedônica está voltando. Se estiver, é necessário usar medicamento”, explica Gláucia.

Ela reforça que profissionais de saúde devem estar preparados para orientar o paciente sobre a influência da genética e dos fatores ambientais na obesidade: “O paciente tem que fazer a lição de casa dele para evitar o aparecimento da doença e de suas complicações”.