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Acontece no PBO

Obesidade ainda não é eixo central nos principais cursos de saúde

Doença, que atinge mais de 25% da população brasileira, aparece em poucas disciplinas das melhores instituições de ensino superior do país

André Derviche Carvalho

16 de dez de 2021 (atualizado 3 de ago de 2022 às 14h54)

Entre os cinco principais cursos universitários brasileiros da a área da Saúde, somente dois possuem disciplinas voltadas à obesidade. Com isso, a formação em obesidade é dificultada no ensino superior. Isso porque, segundo especialistas, a doença exige um tratamento integral. Ou seja, outros fatores para além da genética estão ligados à obesidade. Assim, ela está também vinculada a condições sociais e econômicas do paciente. Porém, sem uma formação em obesidade mais específica, um tratamento multifatorial é dificultado.

Considerando que internacionalmente a obesidade já é reconhecida como pandemia, estando associada a 13 tipos de câncer, o Painel Brasileiro da Obesidade (PBO) elaborou um working paper que explora matrizes curriculares de diversas universidades brasileiras. Vale lembrar que “matriz curricular” é o termo que se refere aos documentos responsáveis por especificar as disciplinas e as cargas horárias de cada curso.

A finalidade do working paper é entender como se dá o cuidado e a integração da obesidade por parte dos profissionais da saúde que lidam com seu tratamento. Além disso, o estudo busca refletir sobre como esses fatores são abordados na formação, principalmente acadêmica, destes profissionais. Atualmente, a doença afeta 25,9% da população adulta no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Formação em obesidade nos cursos universitários

O material do PBO buscou a matriz curricular dos cursos de Educação Física, Enfermagem, Medicina, Nutrição e Psicologia de dez universidades brasileiras, sendo cinco públicas e cinco privadas. Cada par compõe uma região do Brasil e, para a escolha das instituições, foi considerado o critério de estarem colocadas nas melhores posições do Índice Geral de Cursos (IGC) de 2020, ranking do Ministério da Educação.

Nesse levantamento, ficou constatado que somente as grades curriculares dos cursos de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e de Nutrição da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) possuem disciplinas sobre obesidade. “Os conteúdos curriculares dão maior prioridade às questões de saúde individuais do que aos coletivos, e desconsideram fatores ambientais, psíquicos, afetivos, históricos e culturais do processo de saúde-doença do ser humano”, aponta a pesquisa.

Como a obesidade deve ser ensinada?

Esses fatores servem para entender os contextos em que a obesidade surge e definir melhor o seu tratamento. Isto é, por conter consequências econômicas, sociais e metabólicas, a obesidade requer um panorama de maior integralidade em seu ensino. Tal aspecto que não aparece no modelo tradicional de formação na área da saúde, o dito biomédico. De acordo com ele, o corpo humano seria como uma máquina. As doenças que contraímos seriam desequilíbrios nesse sistema. Considerando que o modelo biomédico está na base de cursos universitários na área da saúde, a regularização da obesidade nos currículos brasileiros passa a enfrentar um obstáculo.

“Nós questionamos o modelo biomédico, porque ele não compreende o indivíduo como um todo, a sua forma integral. É por isso que fragiliza o cuidado e a assistência desse indivíduo”, afirma Doralice Batista das Neves Ramos, responsável pela pesquisa e elaboração do working paper. Como resultado, ao romper com esse modelo, o profissional da saúde passa a olhar o paciente de forma mais ampla. Desta forma, o cuidado da obesidade passa a considerar as possibilidades, fragilidades e o ambiente que influenciam o paciente.

O currículo de cursos da Saúde

Quem estabelece o modelo a ser seguido são as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de cada curso. As principais DCN para a área da saúde foram aprovadas entre 2001 e 2002. São elas que apresentam a descrição do Projeto Pedagógico dos Cursos (PPC), elaborados em consonância com o Projeto Pedagógico Institucional (PPI). Portanto, os currículos dos cursos partem “de uma concepção pedagógica articuladora com princípios educacionais, com legislação e com as políticas vigentes, capaz de traduzir na sua essência os anseios da comunidade acadêmica a partir de uma pedagogia competente”.

Pelo que se analisou no working paper, nenhuma DCN dos cinco cursos analisados pontuou a importância de se trabalhar o caráter multifatorial da obesidade. Por isso, nem todos os profissionais da saúde saem da Universidade preparados para lidar com essa doença.

Soluções para a formação em obesidade

De que modo, então, incluir a obesidade na formação dos profissionais de saúde? Um dos caminhos é seguir o exemplo de países como Austrália e Irlanda e criar o curso Ciências da Obesidade. Com isso, o intuito é oferecer uma formação mais especializada no assunto. Apesar disso, ainda seria necessário avaliar se a existência desses cursos implicaria em uma melhora do perfil nutricional da população ou do cuidado que profissionais da saúde têm sobre a pessoa com obesidade.

“Se os profissionais da saúde não têm esse contato [com a obesidade] durante a graduação, eles vão chegar nos atendimentos depois de formados e não vão entender a complexidade da obesidade”, aponta Doralice. Seria importante ter essa temática já regularizada nos currículos de graduação, tendo em vista que o acesso a uma pós-graduação de qualidade não está ao alcance de todos os profissionais da saúde no Brasil.

Para isso, o incentivo financeiro que partiu do Ministério da Saúde em 2019 por meio da Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição (CGAN) aparece. Por meio dele, é possível estimular a formação permanente de profissionais e gestores de saúde com relação à obesidade. “Incentivos como esse são fundamentais para instrumentalizar os profissionais e gestores, com o intuito de qualificar as ações desenvolvidas”, apontou o working paper.

A articulação como caminho

Para o PBO, a solução passa por desde reunir atores de diversas áreas para discutir a formação em obesidade até organizar pesquisas. Nesse sentido, o estudo pode contribuir ao levantar a atualização das Diretrizes Curriculares dos cursos da área da saúde.

Sobre a proposição mais palpável à realidade brasileira, Doralice acredita que a agenda que mais poderia se aplicar seria aquela sobre a articulação dos poderes do Conselho Nacional de Saúde, o Conselho Nacional de Educação junto com os entes dos Conselhos de Saúde. “Não é um processo curto, vai demorar muito”. O resultado dessa articulação passa pela inclusão da pauta da formação em obesidade nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN).