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O que leva alguém a achar que come bem?

Estudo mostra que autopercepção da alimentação está associada a hábitos mais saudáveis, mas também reflete desigualdades sociais

André Derviche Carvalho

15 de jun de 2026 (atualizado 15 de jun de 2026 às 09h58)

Uma pergunta sobre como a pessoa enxerga a própria alimentação pode ajudar a identificar padrões vistos como mais saudáveis de consumo alimentar. Segundo o estudo, mais de 7 em cada 10 adultos e idosos de Rio Grande (RS) avaliaram a própria alimentação de forma positiva. Nesse sentido, o estudo apontou que sentir que tem uma boa alimentação costuma andar junto com escolhas alimentares mais adequadas.

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Autopercepção da alimentação

A prevalência de autopercepção da alimentação positiva foi de 72,4%, segundo pesquisa publicada na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde. Ou seja, a maioria avalia sua dieta de forma favorável.

Por exemplo, entre os marcadores percebidos como mais associados à alimentação saudável estão a realização de refeições ao longo do dia. Nesse grupo, café da manhã, almoço e lanches aparecem com destaque. Ao mesmo tempo, há relação com o consumo regular de frutas, verduras, legumes e leguminosas.

Portanto, esses achados indicam que a autopercepção da alimentação pode funcionar como um sinal inicial de padrões mais alinhados ao Guia Alimentar para a População Brasileira.

Percepção positiva não capta todos os riscos

Por outro lado, nem todos os comportamentos alimentares apresentaram associação com essa percepção. Em especial, o consumo de doces, a adição de sal e a realização do jantar não tiveram relação significativa. Ou seja, não é porque o indivíduo crê que come bem que isso de fato acontece, o que reforça o papel do profissional de saúde no acompanhamento nutricional.

“Muitas vezes o indivíduo acredita que se alimenta bem, mas o seu padrão alimentar não corresponde às recomendações. Se a pessoa não reconhece que precisa mudar, ela dificilmente estará motivada a realizar algum tipo de mudança”, explica a nutricionista e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Karla Machado.

Nesse contexto, esse ponto é relevante para a prática em saúde. Afinal, a percepção de que se come bem pode não incluir todos os aspectos da dieta. Isso ocorre, sobretudo, em relação ao consumo de ultraprocessados e de ingredientes críticos.

Assim, na prática, a autopercepção da alimentação pode coexistir com padrões alimentares que ainda apresentam riscos.

Fatores sociais e de saúde moldam a percepção

Além dos hábitos alimentares, a autopercepção da alimentação também se associa a fatores estruturais. Por exemplo, pessoas com maior renda, mais velhas e fisicamente ativas relataram avaliações mais positivas.

Por outro lado, condições como depressão, pior autopercepção de saúde e insegurança alimentar aparecem ligadas a níveis mais baixos dessa percepção.

Dessa forma, os resultados indicam que a forma como as pessoas avaliam sua alimentação não depende apenas do que consomem. Em vez disso, o contexto de vida e as condições de saúde também influenciam esse julgamento.

Implicações para políticas e práticas em saúde

Diante desse cenário, para gestores e profissionais, os achados reforçam um ponto central:  a autopercepção da alimentação é uma ferramenta útil, mas não suficiente.

Por um lado, ela pode ser incorporada em inquéritos e atendimentos como forma de triagem rápida. Isso é especialmente relevante em contextos com tempo ou recursos limitados.

Por outro lado, os resultados indicam a necessidade de aprofundar a compreensão sobre alimentação saudável . Para isso, estratégias de comunicação e educação alimentar podem ampliar a compreensão sobre o que define uma alimentação adequada.

Por fim, mais do que refletir escolhas individuais, a autopercepção da alimentação aponta para um cenário mais amplo. Esse cenário envolvecondições sociais, acesso a alimentos e experiências de saúde.