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Norte e Nordeste concentram maior insegurança alimentar no Brasil

Estudo mostra que insegurança alimentar também está ligada a educação e violência

André Derviche Carvalho

22 de jun de 2026 (atualizado 22 de jun de 2026 às 07h41)

Estados do Norte e do Nordeste concentram os maiores níveis de insegurança alimentar multidimensional no Brasil. Junto a essa avaliação, um estudo publicado na revista Sustainability propõe um novo índice para medir o problema. Com ele, a avaliação da insegurança alimentar também passa por avaliar renda, saneamento, saúde, educação, trabalho e segurança.

O estudo apresenta o MUFII, sigla em inglês para Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar. A ferramenta foi aplicada aos 27 estados brasileiros, com dados de 2018 e 2022. Com isso, a pesquisa aprimorou a forma de medir a insegurança alimentar, indo além de indicadores nutricionais.

Segundo os autores, a insegurança alimentar é um fenômeno complexo. Portanto, não depende apenas da presença ou da ausência de comida dentro de casa. Ela também envolve fatores que afetam o acesso aos alimentos, a qualidade da alimentação e a capacidade de manter esse acesso ao longo do tempo.

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O que é insegurança alimentar multidimensional

A insegurança alimentar multidimensional também considera fatores como pobreza, desemprego, informalidade no trabalho, acesso à água, escolaridade, infraestrutura escolar, mortalidade neonatal, gravidez na adolescência e violência.

A proposta não substitui instrumentos já usados no Brasil, como a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). No entanto, o novo índice pode complementar diagnósticos como esse . Enquanto a EBIA mede a experiência das famílias em relação à falta de acesso regular a alimentos, o MUFII busca mapear condições estruturais que favorecem ou agravam esse cenário.

“A fome não era resultado apenas da falta de alimento ou de uma alimentação insuficiente, mas que estava ligada a características estruturais e socioeconômicas dessas regiões”, explica Lucas Moura, nutricionista e pesquisador do INCT Combate à Fome, ligado à Universidade de São Paulo (USP).

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Norte e Nordeste tiveram os maiores escores

Na média dos dois anos analisados, os maiores escores foram observados no Acre, com 0,68; no Amazonas, com 0,67; e no Maranhão, com 0,65. Os três estados estão nas regiões Norte e Nordeste. (Quanto maior o resultado, maior o nível de insegurança alimentar multidimensional no território.)

De acordo com os pesquisadores, esse padrão indicaque os territórios mais afetados pela insegurança alimentar também concentram piores indicadores sociais, econômicos e ambientais.

Fome também tem relação com água, educação e violência

Um dos diferenciais do estudo é incluir dimensões menos frequentes em análises sobre insegurança alimentar. O acesso à água segura, por exemplo, aparece como um fator importante. Isso porque a água influencia a higiene, o preparo dos alimentos, a prevenção de doenças e a absorção adequada de nutrientes.

A violência também entrou no índice. Segundo o estudo, contextos de insegurança pública podem afetar a estabilidade dos sistemas alimentares. Esses contextos podem dificultar deslocamentos, reduzir renda, enfraquecer redes comunitárias e limitar o acesso a serviços.

Outro indicador incluído foi a taxa de informalidade entre as mulheres. Famílias chefiadas por mulheres tendem a enfrentar maior instabilidade de renda, especialmente quando o trabalho ocorre sem proteção social.

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Índice pode apoiar políticas públicas

Os autores defendem que o MUFII pode ajudar governos e instituições a identificar prioridades. Como o índice reúne diferentes dimensões, ele permite observar quais fatores pesam mais em cada território.

“Temos um histórico importante de enfrentamento à insegurança alimentar no Brasil. Mas quando essas políticas caminham para um nível mais local, elas perdem o poder de impacto. Um caminho possível é adotar esse pensamento sistêmico e mostrá-lo para os gestores públicos, principalmente municipais”, diz Lucas Moura.

Assim, uma região pode exigir políticas mais centradas em renda e trabalho. Outra pode demandar ações de saneamento, acesso à água, educação ou saúde materno-infantil. Esse tipo de leitura evita respostas únicas para problemas que têm causas combinadas.

Diagnóstico mais amplo para um problema estrutural

O estudo conclui que a insegurança alimentar no Brasil precisa ser compreendida em sua complexidade territorial, social e ambiental. A fome não aparece isolada. Pelo contrário, ela se combina com pobreza, baixa escolaridade, falta de infraestrutura, instabilidade no trabalho e dificuldades de acesso a serviços básicos.

Nesse sentido, a insegurança alimentar multidimensional ajuda a mostrar que o problema não se resume ao prato vazio. Ela revela um conjunto de vulnerabilidades que limita o direito à alimentação adequada e saudável.