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Por que a atividade física é parte do cuidado da pessoa com obesidade?

Professor da UEL defende que o movimento integre o cuidado da pessoa com obesidade de forma acessível e sem barreiras

André Derviche Carvalho

8 de set de 2026 (atualizado 8 de set de 2026 às 11h56)

O cuidado integral da obesidade vai além do peso corporal. Ele envolve movimento, saúde metabólica, acesso a espaços adequados e barreiras sociais que atravessam a rotina das pessoas. Para discutir esse tema, o Painel Brasileiro da Obesidade conversou com Fábio Luiz Cheche Pina, educador físico e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Na entrevista, Pina apresenta a atividade física como uma ferramenta terapêutica. Ele afirma que o movimento não deve ficar restrito à estética ou ao desempenho. Também aponta como os determinantes sociais dificultam a adesão ao exercício, especialmente quando faltam tempo, espaços públicos e acesso ao cuidado. Além disso, defende que o educador físico atue como facilitador, e não como mais uma barreira para a pessoa com obesidade. Leia a entrevista completa a seguir.

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Qual é o papel da educação física dentro do cuidado integral da obesidade?

“Vai muito além da estética, é uma necessidade orgânica do nosso corpo. Se o nosso corpo não se mexe, ele ‘padece’. O importante é se mexer. A forma é uma escolha pessoal. Temos que tirar as barreiras da prática de atividade física. O profissional de educação física tem que ser um promotor do movimento humano, seja academia, esporte ou dança, por exemplo”

O que mudou na prática de exercício físico no tratamento da obesidade?

“Por mais que hoje a gente tenha bastante informação mostrando essa importância do movimento corporal, isso não tem se refletido em pessoas mais ativas. Infelizmente, a população está cada vez mais sedentária. O comportamento sedentário é uma tônica muito forte. Por isso, temos muito no que avançar com criação de espaço e propaganda para mudar este contexto”

Como os determinantes sociais influenciam a prática de atividade física?

“Eles são as principais barreiras para a prática de atividade física. Todos temos 24 horas, mas as 24 horas não são iguais para todo mundo, cada um tem uma necessidade. Enquanto nas minhas 24 horas eu tenho tempo de ir à universidade, voltar para casa e praticar atividades físicas em tempo hábil, infelizmente tem pessoas que estão o dia inteiro em deslocamento, trabalho e retorno para casa. Isso acaba virando um grande complicador para a pessoa. Além das dificuldades de espaço para as práticas. Especialmente para populações de áreas mais periféricas, faltam espaços públicos para a prática de atividades físicas. Faltam políticas públicas nesse sentido.

Como o exercício físico atua no corpo no tratamento da obesidade?

“Tanto no meu mestrado quanto no doutorado, estudamos a população idosa com obesidade. Um dos indicadores metabólicos mais interessantes que achamos naquele momento foi que há uma redução bem interessante nos indicadores inflamatórios. Além disso, há um fator na questão social, visto que é uma prática em grupo. Eles viam na atividade física um componente importante. Só de ter aquele momento da atividade física, já era diferenciado com a união das pessoas naquele espaço”

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Como ampliar o cuidado da obesidade dentro do SUS?

“O financiamento até tem, mas fica muito aquém do que se espera. O Brasil tem mais de 5 mil municípios, mas nem 2,5 mil profissionais de educação física vinculados à saúde pública. Precisa melhorar bastante a questão do financiamento. Uma prática de atividade física adequada requer uma boa ideia e um bom espaço. Se não houver facilidade no acesso a espaços como academia, não vai adiantar nada. Boa parte da população não tem condição deste acesso”

Quais estratégias nos ajudam a pensar na adesão a longo prazo da atividade física?

“Adesão é algo bem complexo. Em algumas situações, temos adesão boa, mas uma aderência (continuidade) mais complexa. Precisamos olhar para o que gera um complicador e gerar facilitadores para isso. É preciso criar mais facilitadores, não barreiras. Infelizmente, a prática física é excludente. Às vezes, na ação profissional, eles esquecem essa questão. A criação de espaços públicos seria importante. O profissional precisa entender que ele é o responsável por essa ação de mudança, ele não pode ser um complicador”

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Como o educador físico pode se integrar a outras formações no cuidado dessa pessoa com obesidade para não produzir mais sofrimento?

“Por mais que existam diretrizes do próprio MEC para cursos de educação física, isso ainda é uma questão muito individual de cada instituição de ensino superior. Enquanto há faculdades que valorizam essa formação, há outras que não. Muitas vezes os profissionais vêm com uma formação deficitária da própria graduação e, quando inserido em um ambiente com outros profissionais, vira um grande choque”

Como construir uma relação mais positiva entre corpo, movimento e saúde?

“É uma questão bem complexa. Se nos ajudarmos, os espaços são favorecidos, nós ficamos unidos e em movimento. Já temos muitos problemas na vida para criar mais complicadores. Já presenciei muitas situações em que as pessoas mais quiseram complicar que ajudar. O que mais complica a prática esportiva é a própria pessoa que está próxima dizendo que a pessoa com obesidade não pode. Movimente-se. A forma que você se movimenta é uma escolha sua, mas movimente-se sempre que puder”