Não possui cadastro?

Cadastre-se

Já possui conta?

Faça login

Pagamento aprovado... Acessos liberados

Seu pedido foi aprovado com sucesso

Já liberamos o acesso ao espaço exclusivo para assinantes.

Acessar área exclusiva

Pedido não processado :(

Infelizmente o seu pedido não foi processado pela operadora de cartão de crédito

Tente novamente clicando no botão abaixo

Voltar para o checkout

Notícias

Buscar

Acontece no PBO

“Nosso sistema alimentar está falido”

Em participação na live do PBO, o professor do departamento de Sociologia da UFRGS Maycon Schubert fala sobre alimentação

André Derviche Carvalho

1 de ago de 2022 (atualizado 7 de ago de 2022 às 17h22)

Entre os tantos fatores pelos quais passa a obesidade, a alimentação está entre eles. Como boa parte dos hábitos do cotidiano, o comer pode ser visto também sob a perspectiva das ciências sociais, análise que vem em bom tempo. Afinal, hoje, mais de 30 milhões de pessoas encontram-se em situação de fome no Brasil, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19. Com isso, as discussões levam aos determinantes do acesso ao comer dentro do sistema alimentar.

Paradoxalmente, o Brasil vê, além da fome, a obesidade crescer em seu território. É no meio desses dois pólos que se encontra a alimentação. O professor do departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Maycon Schubert analisou o sistema alimentar sob a ótica das ciências sociais, colocando também nessa receita a divisão de classes e até as mudanças climáticas que o mundo enfrenta. Confira trechos da entrevista:

Qual é o fator que mais contribui para o aumento de casos de obesidade?

O sistema alimentar é um sistema praticamente falido na nossa sociedade. Ele tem contribuído muito com a poluição, com as mudanças climáticas e com o aumento do índice de obesidade, impactando na saúde pública. Ele produz mais alimentos com menos qualidade e poluindo mais. 

Há a necessidade de ter uma política regulatória de Estado em relação à produção de alimentos. Nós precisamos diminuir o uso de agrotóxicos, melhorar a forma como produzimos alimento, melhorar a distribuição, o abastecimento e ter um apoio mais forte e persistente às populações mais vulneráveis. No Brasil, com o nível de desigualdade social e uma população empobrecida, é cada vez mais difícil as pessoas comerem bem.

Por isso, minha proposição é a de ter uma reconfiguração do ponto de vista político: precisamos ter um Ministério que se preocupe com a alimentação no Brasil. Não é possível ter um Ministério de Agricultura e Abastecimento que vira as costas para a fome no Brasil. Isso é inaceitável. Não podemos mais tratar a alimentação no Brasil como uma questão só de produção e exportação de alimentos. Precisamos tratar como uma questão de qualidade alimentar.

Então, é possível encontrar um fator de classe dentro do sistema alimentar?

Sim, há um recorte de classe, e eu diria que isso é bastante contextual, dependendo do país. Por exemplo, no Brasil, o maior índice de consumo de ultraprocessados não está na classe mais pobre. O ultraprocessado no Brasil é caro. 

Com certeza há essa diferenciação social, mas é claro que ela se pulveriza um pouco. Dentro das classes sociais há uma busca por distinção social também. Assim, diferentes grupos acabam se juntando identitariamente. Por exemplo, há o veganismo das elites e há o veganismo periférico; há o veganismo da comunidade negra, a partir do afro veganismo, assim como há o queer veganismo, LGBTQIA +. Há diferentes tribos dentro desses movimentos, tanto de movimentos políticos, como também estratos de classe social.

Então, essas especificidades estão aflorando. A busca pela identidade dos corpos, da posição de fala, da presença é muito importante contemporaneamente, e ela está na alimentação.

Profissionais da nutrição ainda encontram dificuldade em passar à pessoa com obesidade o olhar para o ato de cozinhar como algo revolucionário, algo que vai mudar a vida e que vai melhorar a saúde. Como você vê esse cenário?

Eu vou ser um pouco polêmico nesse ponto. Temos que ter um cuidado e não sermos normativos. Hoje, as mulheres ainda cozinham muito mais que os homens, na pandemia isso ficou evidente. E esse tem sido o espaço de opressão para as mulheres. Elas querem deixar a cozinha em vez de cozinhar mais. Isso em uma perspectiva feminista de libertação das mulheres. 

Além disso, há um ponto de vista estrutural: muitas vezes as pessoas não têm condição de cozinhar em casa. Para ter ideia, hoje, numa situação de insegurança alimentar no Brasil, muitas ainda estão levando marmita para as pessoas, porque as pessoas não têm dinheiro para comprar o gás de cozinha. 

É óbvio que a cozinha é importante, mas não podemos também restringir a alimentação adequada e saudável somente ao ato de cozinhar. Primeiro, porque não garante uma alimentação saudável necessariamente. Pode ser que as pessoas cozinhem mal; e, segundo, a gente pode ter outras opções em que as pessoas podem acessar o alimento de boa qualidade: uma marmita congelada, uma sopa congelada, que podem também contribuir para a saúde delas sem necessariamente elas estarem cozinhando. 

Voltando à obesidade, movimentos que buscam aceitar e reivindicar essa condição podem favorecer o aumento da obesidade?

É preciso separar as coisas. Há a dignidade da pessoa humana e o direito a ter o reconhecimento social e a não sofrer discriminação, preconceito nem estigma. Assim como combatemos o racismo, sexismo temos que combater a gordofobia. Não é possível mais aceitar que as pessoas tenham suas chances de vida diminuídas em razão de seus corpos. Isso não é incentivar a obesidade, mas, sim, aceitar as pessoas com obesidade e não minimizar suas expectativas de vida do ponto de vista de suas oportunidades sociais. Elas têm que ter direito ao transporte público, aos ambientes sociais. Elas não podem ser crianças que sofram bullying na família ou na escola em razão de seu corpo. 

Evidentemente, é necessário trabalhar a educação alimentar do ponto de vista clínico e epidemiológico. Porém, precisamos ampliar essa discussão e evitar a gordofobia médica, estética e outros tipos de gordofobia. Temos que trabalhar isso do ponto de vista da consciência social, não aceitar mais a discriminação desses corpos. Ao mesmo tempo, trabalhar com a questão clínica com muito cuidado, respeito e ética.

No campo da sociologia, eu diria que isso é fundamental e a gente tem dado pouca atenção, especialmente para o bullying e para a gordofobia, nas escolas. Precisamos inserir a questão da gordofobia nas crianças na agenda da educação alimentar. Isso é muito sério e muito importante.